
O ronco é um dos assuntos mais comuns nas consultas de medicina do sono, e também um dos mais subestimados. Muita gente até faz piada sobre o assunto, mas o fato é que roncar de forma habitual pode ser um sinal importante de que algo não está bem com o seu sono e com a sua saúde.
Por que a gente ronca?
O ronco acontece quando o ar encontra resistência ao passar pela via aérea superior durante o sono. Quando dormimos, os músculos da garganta relaxam, e em algumas pessoas, esse relaxamento é excessivo, estreitando a passagem de ar. O ar que passa por esse espaço reduzido faz vibrar as estruturas moles da garganta, produzindo aquele som característico.
Alguns fatores aumentam a chance de roncar:
• Sobrepeso e obesidade (o excesso de tecido gorduroso ao redor da garganta estreita a via aérea)
• Consumo de álcool (relaxa ainda mais a musculatura)
• Uso de sedativos e medicamentos relaxantes musculares
• Posição de dormir de barriga para cima
• Anatomia da via aérea (pescoço curto e grosso, amígdalas grandes, palato estreito)
• Obstrução nasal por rinite ou desvio de septo
• Envelhecimento (os tecidos perdem tônus com o passar dos anos)
Ronco simples x Apneia do Sono: qual a diferença?
Nem todo ronco significa apneia do sono, mas todo ronco merece atenção. O ronco primário ou simples é aquele em que a pessoa ronca, mas sem ter paradas na respiração durante o sono. É um incômodo, principalmente para quem dorme do lado, mas sem consequências graves para a saúde.
Já na Apneia Obstrutiva do Sono (AOS), além do ronco, ocorrem pausas respiratórias reais, em que a passagem de ar é completamente bloqueada por alguns segundos, às vezes mais de 10 ou 20 segundos. Essas paradas resultam em queda de oxigênio no sangue e ativação de resposta de estresse no organismo, repetidas muitas vezes por noite.
O problema é que a própria pessoa que tem apneia muitas vezes não percebe — ela não acorda completamente durante as paradas. Mas acorda cansada, com dor de cabeça de manhã, com sonolência durante o dia, e com o parceiro relatando que “você para de respirar enquanto dorme”.
Como saber se o ronco precisa de investigação?
Alguns sinais indicam que o ronco vai além de um simples incômodo e deve ser avaliado por um médico:
• Ronco alto e frequente (todas ou quase todas as noites)
• Testemunhas relatando pausas na respiração durante o sono
• Acordar com sensação de engasgo ou sufocamento
• Acordar cansado, com sensação de sono não reparador
• Sonolência excessiva durante o dia
• Dor de cabeça ao acordar
• Acordar com a boca seca ou dor de garganta
• Dificuldade de concentração e memória
• Irritabilidade ou alterações de humor
Diante desses sinais, o caminho é consultar um médico especialista em sono para a realização de uma polissonografia, o exame que diagnostica a apneia e quantifica sua gravidade.
Ronco tem tratamento?
Sim, e dependendo da causa e da gravidade, as opções são variadas:
• Mudanças de hábito: perda de peso, evitar álcool à noite, mudar a posição de dormir
• Tratamento das obstruções nasais: rinite, desvio de septo
• Dispositivos intraorais (aparelhos dentários que reposicionam a mandíbula)
• CPAP: aparelho que mantém a via aérea aberta durante o sono, indicado principalmente para apneia moderada e grave
• Cirurgia: em casos selecionados, quando há alterações anatômicas específicas
O tratamento correto depende de um diagnóstico preciso. Não existe solução genérica, cada caso tem sua particularidade.
A mensagem final
Roncar não é normal. Não é sinal de que a pessoa dorme bem. É um sinal de que o ar está encontrando dificuldade para passar, e isso pode ter consequências sérias para a saúde.
Se você ronca – ou se alguém da sua família ronca – vale a pena investigar. Dormir bem é uma necessidade para sua saúde física e mental, e existe tratamento eficaz disponível.