Muitas pessoas sentem desconforto na região cervical acompanhado de dor de cabeça e logo imaginam tratar-se de um problema na coluna. No entanto, em muitos casos, especialmente quando há história típica de enxaqueca – essa dor no pescoço faz parte da própria crise.
Compreender essa diferença é o primeiro passo para evitar anos de tratamentos direcionados ao sintoma errado.
Se o problema fosse apenas muscular, por que a dor vem acompanhada de náusea, sensibilidade à luz e piora com o movimento?
A ciência moderna da dor mostra que o pescoço e o cérebro funcionam como um sistema integrado.
A enxaqueca é um estado de hiperalerta

A enxaqueca vai muito além de uma dor de cabeça forte. Ela ocorre quando o cérebro se torna hipersensível e reage de forma exagerada a estímulos rotineiros — como claridade, ruídos, cheiros, oscilações emocionais ou esforço físico. O cérebro entra em um verdadeiro estado de hiperalerta.
Nesse contexto, a dor surge como um mecanismo de proteção. É como se o cérebro puxasse o freio de mão, forçando o corpo a buscar um ambiente escuro e silencioso para se recuperar. Além da dor intensa, podem ocorrer cansaço, alterações de humor, dificuldade para dormir e dificuldade de concentração.
A doença costuma evoluir em fases:
• Fase inicial: crises esporádicas, com dor latejante, náusea, aversão à luz e ao som, e piora com o movimento.
• Fase de transição: aumento da frequência das crises. Podem surgir sinais mesmo entre os episódios, como insônia e alodinia — dor ao toque leve, como ao pentear o cabelo.
• Fase de sensibilização central sustentada: o sistema nervoso torna-se persistentemente hiper-reativo. A dor cervical pode passar a ser frequente ou contínua, acompanhada de fadiga e sono de má qualidade.
• Fase crônica: a dor ocorre na maior parte dos dias do mês, com raros períodos de alívio.
A conexão trigeminocervical
O sistema trigeminocervical integra informações do nervo trigêmeo (responsável pela sensibilidade da face) e das raízes cervicais superiores (C1, C2 e C3). Essas estruturas convergem em um mesmo núcleo no tronco cerebral.
Durante uma crise de enxaqueca, a ativação do sistema trigeminovascular pode irradiar sinais para a região cervical, ativando músculos da nuca e dos ombros. Assim, a dor no pescoço pode ser uma manifestação da própria enxaqueca — não necessariamente sua causa.
Em alguns pacientes, podem ocorrer sintomas autonômicos discretos, como lacrimejamento leve ou congestão nasal, geralmente menos intensos do que nas cefaleias trigêmino-autonômicas, como a cefaleia em salvas.
Portanto, não estamos falando apenas de uma contratura muscular, mas de um fenômeno neurobiológico mais amplo.
Quando a dor realmente começa no pescoço
Existe, porém, uma condição chamada cefaleia cervicogênica, na qual a dor tem origem primária nas estruturas cervicais.
Ela costuma apresentar algumas características específicas:
• Dor unilateral fixa (não alterna de lado);
• Piora com movimentos do pescoço;
• Pode ser reproduzida à palpação ou compressão das articulações cervicais;
• Frequentemente associada a trauma prévio, artrose ou sobrecarga mecânica.
Nesses casos, o tratamento deve ser direcionado à disfunção cervical.
Quando os dois problemas coexistem
É importante destacar que uma pessoa pode ter enxaqueca e também alterações estruturais na coluna cervical. Nesses casos, o tratamento deve considerar ambos os fatores.
Reduzir tudo a “é só coluna” ou “é só enxaqueca” pode atrasar o diagnóstico correto.
O risco do ciclo de analgésicos
Quando a dor cervical é tratada repetidamente apenas com analgésicos, pode ocorrer um fenômeno chamado cefaleia por uso excessivo de medicação.
Nesse cenário, o uso frequente de medicamentos para dor acaba perpetuando o ciclo da enxaqueca, aumentando a frequência das crises e tornando o quadro mais difícil de controlar.
Por isso, identificar a verdadeira origem da dor é fundamental.
Sinais de alerta neurológico
É essencial buscar avaliação médica se a dor:
• Surgir pela primeira vez após os 50 anos;
• Vier acompanhada de rigidez intensa;
• Estiver associada a febre;
• Provocar perda de força, formigamento ou visão dupla;
• For muito diferente do padrão habitual.
Esses sinais podem indicar outras condições que exigem investigação imediata.
Como tratar a verdadeira causa da dor
O tratamento depende da fase da doença e das características individuais de cada paciente.
Ele pode incluir:
• Organização do sono e rotina;
• Hidratação e alimentação equilibrada;
• Fisioterapia quando houver indicação específica;
• Medicamentos preventivos orais clássicos;
• Terapias direcionadas ao CGRP;
• E, em casos de enxaqueca crônica, aplicação de toxina botulínica.
Nem todo paciente precisa de todas as terapias. A decisão deve ser individualizada, baseada na avaliação médica e no perfil clínico de cada pessoa.
Em muitos casos, quando a enxaqueca é tratada adequadamente, a dor cervical também melhora.
Muitos pacientes passam anos tratando a coluna, realizando exames repetidos e trocando de profissional, sem perceber que o verdadeiro problema pode estar na forma como o cérebro está processando a dor.
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