
O sono não é igual para todo mundo, e não é igual para a mesma pessoa ao longo da vida. Desde o recém-nascido que dorme quase o dia todo até o idoso que acorda cedo demais, o nosso sono passa por transformações importantes em cada fase da vida. Entender essas mudanças ajuda a distinguir o que é normal do que merece atenção.
A infância: um sono em construção
Os recém-nascidos dormem entre 14 e 17 horas por dia, em ciclos curtos distribuídos ao longo das 24 horas. Isso acontece porque o relógio biológico (ritmo circadiano) ainda está em desenvolvimento, e ele só se consolida por volta dos 3 a 4 meses de vida, quando o bebê começa a ter períodos mais longos de sono à noite.
Na primeira infância, o sono tem uma proporção maior de sono REM, a fase dos sonhos, que é fundamental para o desenvolvimento cerebral. As parassonias, como sonambulismo, terrores noturnos e pesadelos, são mais comuns nessa fase e geralmente têm caráter benigno, tendendo a diminuir com o crescimento.
Crianças em idade escolar precisam de 9 a 11 horas de sono por noite. A privação de sono nessa fase interfere diretamente no aprendizado, na memória, no comportamento e no humor. Algumas crianças com dificuldade de atenção e agitação na escola podem estar sendo tratadas para TDAH, enquanto o problema real é um sono de má qualidade ou por tempo insuficiente.
A adolescência: o relógio que atrasa
Uma das mudanças mais marcantes do sono acontece na adolescência. Por razões hormonais e neurológicas, o relógio biológico do adolescente sofre um atraso de fase, o que significa que eles naturalmente sentem sono mais tarde e precisam acordar mais tarde também. Não é preguiça, é biologia.
O problema é que a sociedade e as escolas exigem que os adolescentes acordem cedo, gerando uma privação crônica de sono muito comum nessa faixa etária. As consequências incluem dificuldade de aprendizado, alterações de humor, maior risco de acidentes e até maior vulnerabilidade a problemas de saúde mental.
Adolescentes precisam de 8 a 10 horas de sono por noite.
A vida adulta: o sono sob pressão
Na vida adulta, o sono enfrenta seus maiores inimigos: o trabalho, o estresse, os filhos pequenos, as responsabilidades, os horários irregulares e os dispositivos eletrônicos. A necessidade de sono do adulto é de 7 a 9 horas por noite, mas a realidade de muitos está longe disso.
A privação crônica de sono na vida adulta se normaliza de um jeito preocupante, muita gente nem percebe mais como seria dormir bem de verdade. Com o passar dos anos, os distúrbios do sono se tornam mais frequentes: insônia, apneia, síndrome das pernas inquietas.
Nas mulheres, a gestação e a menopausa trazem mudanças hormonais que impactam diretamente o sono. Na gestação, o sono é fragmentado por desconforto físico e idas ao banheiro; na menopausa, os fogachos noturnos, a ansiedade e as mudanças hormonais são causas comuns de insônia.
A terceira idade: menos sono ou sono diferente?
Na velhice, o sono muda de forma bastante significativa. As pessoas idosas tendem a:
• Adormecer mais cedo e acordar mais cedo (avanço de fase do ritmo circadiano)
• Ter o sono mais leve e mais fragmentado
• Acordar mais vezes durante a noite
• Ter menor proporção de sono profundo
• Produzir menos melatonina
Muitas pessoas idosas se queixam de insônia, mas parte do que percebem como “não dormir” é, na verdade, uma mudança normal da arquitetura do sono com o envelhecimento. No entanto, isso não significa que problemas de sono devam ser ignorados. Distúrbios como apneia, síndrome das pernas inquietas e insônia real são mais prevalentes nos idosos e têm impacto importante na saúde e na qualidade de vida.
Além disso, muitas condições de saúde comuns na terceira idade, como dor crônica, doenças cardíacas, problemas urinários, ansiedade e depressão, interferem diretamente no sono. Em muitos casos, os idosos também utilizam diversas medicações que podem influenciar a qualidade do sono.
O que fazer em cada fase?
Em todas as idades, os princípios básicos de higiene do sono se aplicam: manter horários regulares, criar um ambiente propício para o descanso, evitar estimulantes à noite e dar ao sono a importância que ele merece.
Mas quando os problemas de sono persistem e afetam a qualidade de vida, em qualquer fase da vida, o caminho é buscar avaliação especializada. Não é normal se arrastar de cansaço todos os dias, e existe tratamento disponível para os principais distúrbios do sono em todas as idades.